Na crise, executivos voltam para sala de aula

Fonte: Adriana Fonseca, Valor Econômico

De forma geral, cursos de MBA Executivo se propõem a ensinar os alunos a terem visão estratégica e pensamento analítico orientado para resultados, além do gerenciamento de riscos e o exercício da liderança. “Para quem quer crescer na carreira, não faz sentido não ter um MBA”, afirma o headhunter André Freire, sócio-diretor da consultoria de recrutamento EXEC.

A crise econômica e a incerteza em relação ao emprego não têm impedido os executivos de investirem na própria qualificação. Ao contrário. As quatro escolas de negócios creditadas com padrão global pela Associação Nacional de MBA (Anamba) – Iese, Katz, FIA e Insper – e que oferecem curso de MBA Executivo no país viram a procura pelo programa crescer. O aumento mais expressivo foi sentido pela espanhola Iese, que oferece seu MBA Executivo no Brasil desde 2012. Érica Rolim, diretora do programa, afirma que a procura pela próxima turma, com início em agosto de 2016, já está 46% maior do que no mesmo período do ano passado.

Na americana Joseph Katz Graduate School of Business, da Universidade de Pittsburgh e estabelecida no Brasil desde 1999, a procura pela próxima turma do MBA Executivo aumentou 15% em relação ao ano passado. “Notamos uma procura maior de executivos que estavam há muitos anos sem sentar em uma cadeira escolar”, afirma Karla Alcides, diretora geral do

A brasileira Fundação Instituto de Administração (FIA) também notou aumento na procura por seu MBA Executivo Internacional: 12% neste ano em relação ao período anterior. James Wright, diretor do programa, atribui os resultados à maturação do curso, criado em 2009 em sua versão em inglês, e à indicação boca a boca.

O Insper, apesar de não abrir números, confirma que a procura por seu MBA Executivo aumentou. Silvio Laban, coordenador acadêmico dos cursos de MBA da escola, vê duas hipóteses para o aumento na demanda. De um lado estão os profissionais, que buscam estar melhor preparados. De outro, as empresas, que incentivam seus melhores funcionários – os que ficaram em um cenário de quadro reduzido – a se aperfeiçoarem.

De forma geral, cursos de MBA Executivo se propõem a ensinar os alunos a terem visão estratégica e pensamento analítico orientado para resultados, além do gerenciamento de riscos e o exercício da liderança. “Para quem quer crescer na carreira, não faz sentido não ter um MBA”, afirma o headhunter André Freire, sócio-diretor da consultoria de recrutamento EXEC. Caio Moreno, 34 anos, sabe disso. Ao terminar a faculdade de engenharia em 2006, ele ingressou em um concorrido programa de trainee. Na empresa, umas das maiores instituições financeiras do país, está até hoje, onde ocupa o cargo de superintendente de planejamento comercial – equivalente, no mercado, ao nível de diretoria.

Antes da última promoção, Moreno gerenciava uma equipe de 30 pessoas. O próximo passo da carreira era grande, já que teria sob sua responsabilidade um grupo de 100 funcionários. “Fui em busca de mecanismos e técnicas para esse momento”, diz.

Em agosto do ano passado, ele ingressou no MBA Executivo do Iese – curso que deve concluir em 2017. Quando começou o programa, já com dez anos de carreira no currículo, Moreno imaginava que o forte do MBA – uns 70%, como ele diz – seria ajudá-lo a pensar diferente e a remodelar seu padrão mental. Mas, passados alguns meses, ele viu que há três pilares muito bem divididos: modelo mental, carga técnica de informação e networking. “Todos esses aspectos já vêm me ajudando a tomar decisões na área em que atuo”, diz.

Cursar um MBA no Brasil não era o plano A de Moreno. Sua ideia inicial era fazer um curso “full-time” no exterior. Mas o desenvolvimento da carreira e a chegada do primeiro filho fizeram com que o executivo repensasse sua decisão. “Eu até comecei o preparatório para ir para o exterior, mas as coisas foram acontecendo e percebi que seria ruim para a minha carreira- e complicado na vida pessoal – ficar longe por esse período”, conta.

Caminho semelhante traçou Felipe Borschiver, 30 anos. Após oito anos no mercado financeiro, ele decidiu mudar o rumo que a carreira tomava. A saída, na visão de Borschiver, estava no MBA “full-time” que, ao contrário do MBA Executivo, requer dedicação em período integral aos estudos. A ideia inicial era ir para o exterior, mas a filha bebê também o fez repensar a decisão.

O executivo não desistiu do programa em tempo integral e ingressou, neste ano, no curso do Instituto Coppead, escola de negócios da Universidade Federal do Rio de Janeiro. O programa, gratuito, é o único brasileiro que já marcou presença na lista dos melhores MBAs “full-time” do “Financial Times”, em 2012, 2013 e 2014. A procura pelo curso da escola carioca também subiu: 48% neste ano, chegando a 311 inscritos para a turma de 2016. A cada ano a instituição aceita até 49 alunos.

Paula Chimenti, vice-diretora do mestrado do Coppead, atribui o crescimento a dois fatores. “Vemos os jovens brasileiros querendo se preparar melhor para um mercado cada vez mais difícil e, outro aspecto importante, é que passamos a ministrar o mestrado em inglês, o que fez com que estudantes do mundo inteiro passassem a avaliar o Coppead como opção”, diz. Em 2016, 30% da turma é composta por alunos do exterior.

De olho no mercado brasileiro, a escola de negócios alemã ESMT, também listada nos rankings do “Financial Times”, acaba de desembarcar no Brasil. Em maio tem início a primeira turma do MBA Executivo em liderança e gestão, ministrado em parceria com a brasileira Saint Paul Escola de Negócios.

“Apesar das dificuldades atuais, a reputação do Brasil como membro dos Brics é boa na Alemanha”, afirma Christoph Burger, reitor associado sênior de educação executiva da ESMT. “Além disso, nós acreditamos que a ESMT pode agregar valor ao programa da Saint Paul introduzindo aos brasileiros fórmulas de sucesso da recuperação econômica alemã após a recessão do fim do século XX.” O novo curso, que deve receber entre 25 e 30 alunos, é dirigido a líderes com cerca de 10 anos de carreira.

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