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Um casamento conveniente para ambas as partes

Fonte: Estadão

Empresas procuram profissionais mais experientes e quem já passou dos 50 anos comemora por continuar no mercado de trabalho

Ronaldo Risseto foi gerente de supply-chain em empresas como Reebok e Henkel. Participou de reuniões internacionais em todos os continentes. Com a combinação de um mercado recessivo com a política de ‘renovação de quadros’ da então empregadora, Risetto perdeu o emprego, aos 60 anos de idade. Ele participou de alguns processos seletivos sem deixar a desejar nos quesitos experiência, conhecimentos técnicos, inglês fluente, e uma pós-graduação no exterior. “Em determinada altura, percebi que o que me excluía era a idade”, diz ele.

A percepção se confirmou quando ele chegou ao final de um processo seletivo mas não foi o contratado. “Me informaram que, apesar de ser mais qualificado, fui preterido porque eu tinha 60 anos e o profissional escolhido tinha 50.”

Naquele momento, Rissetto resolveu fazer algo além de atender convites para entrevistas de emprego e fundou a Pangera, uma startup que propõe trabalhar as similaridades entre as diversas gerações que convivem no ambiente social, familiar e corporativo.

“O envelhecimento da população é um fato, a necessidade por profissionais experientes também é. Não estamos falando aqui de amparar o idoso e sim de extrair o máximo de profissionais capazes de gerar valor para as empresas, independentemente da idade que tenham.” E as empresas estão percebendo isso.

No início dos anos 2000, com a economia indo de vento em popa, o processo conhecido como ‘juniorização’ do alto escalão corporativo chegou ao seu auge. Mas aí veio a crise global em 2008 e a falta de experiência dos jovens diretores e gerentes em lidar com ambientes hostis cobrou seu preço. Esta experiência despertou a busca pelo equilíbrio no quadro de jovens funcionários com a contratação de senhores e senhoras de cabelos brancos.
Segundo levantamento da EXEC, consultoria especializada em recrutar executivos, em 2015, 8% dos profissionais contratados tinham mais de 50 anos de idade. No ano seguinte, este porcentual subiu para 12% e, em 2017, foi a 15%. “É uma evolução consistente e um sinalizador importante se considerarmos que, em 2005, de cada quatro mil contratados, apenas 3, em média, tinham mais de 50 anos”, afirma Carlos Eduardo Altona, sócio-fundador da EXEC.

 

Disposição. Segundo ele, além de aprender com a crise de 2008, as companhias perceberam que, mesclar as características de várias gerações rende dividendos. Por outro lado, a postura dos mais velhos também mudou. “A geração que está chegando aos 50 não têm aquele ar de desamparo e se apresentam com muita disposição para continuar no jogo”, afirma Altana.

A seguradora Tokio Marine é um exemplo da combinação de uma postura mais altiva dos grisalhos com a necessidade das companhias de ter a experiência trabalhando a seu favor. No ano passado, lançou o projeto Toque de Vivência, para contratar justamente profissionais com mais de 50 anos de idade.
Deu tão certo que o que era projeto virou política e a empresa triplicou a quantidade de contratações dessa faixa etária. “Começamos com cinco vagas e subimos para 17. Recebemos mais de 400 currículos por vaga. Foi incrível mas também assustador”, afirma a superintendente de Recursos Humanos da seguradora, Juliana Zan.

A área prioritária, mas não mandatória, para esse público é a de atendimento e Juliana explica: “Quando o cliente aciona uma seguradora, normalmente ele está em situação de estresse. As pessoas mais velhas transmitem segurança e tranquiliza o cliente”.

Paciência.Um dos contratados pela seguradora é o administrador de empresas Masashi Yamato, de 59 anos de idade – os últimos 12 ele passou trabalhando com sistemas de TI em grandes empresas do setor financeiro. Desde outubro, porém, dá expediente no contact-center da empresa. “Foi ótimo, porque ninguém me queria mais”, diz em tom de brincadeira.
Yamato, que sempre teve contato com o call centers no papel de cliente, agora vive do outro lado do balcão. “Já perdi a paciência com cliente, mas nunca a educação”, confessa ele, colega de trabalho de Maria Angélica de Souza, de 52 anos. Ela entrou no programa na mesma época e diz que a experiência devolveu-lhe a autoestima. “As pessoas acham que a idade chega e a capacidade vai embora”, reclama ela. Nada mais obsoleto.

Outra companhia que também tem aumentado sua aposta na experiência dos mais velhos é a Gol que, desde junho de 2017, ampliou as contratações deste perfil. Desde então, já fizeram mais de 60 recrutamentos para um quadro que não estava tão balanceado em termos de faixa etária.
Dos 15 mil funcionários da companhia aérea, 1,8 mil têm mais de 50 anos. “São mais acolhedores, têm a capacidade de se colocar no lugar do outro”, avalia Jean Nogueira, diretor executivo de Gente e Cultura da companhia de aviação.
Conflitos. Segundo levantamento da consultoria Pangera, pela primeira vez na história, a humanidade assiste à convivência simultânea entre tantas gerações. À pergunta “com quantas gerações você costuma trabalhar”, 55% dos consultados responderam três e outros 44% disseram que trabalham com quatro gerações diferentes da sua. No mesmo levantamento, 70% responderam que já sofreram preconceito por conta da idade. “E isso não acontece só com os mais velhos. Os mais jovens também sofrem”, afirma Risetto.

Embora as companhias queiram mesclar experiências, 80% dos consultados pela Pangera disseram que suas empresas não têm programa ou estratégia definidos para lidar com as diferenças de idade. “O conflito mais comum é o imediatismo dos jovens” diz Juliana Zan, da Tokio Marine.
Por outro lado, quem tem mais de 50, busca a perfeição do produto ou serviço antes de colocá-lo no mercado. “O jovem de hoje é a geração da experimentação. Ele ‘conserta’ o que precisar com o produto na praça”, diz Altona, da EXEC, acrescentando que mesmo o consumidor atualmente aceita essa experimentação.

Mas o fato é que há espaço para todas as idades no mundo corporativo. De acordo com Altona, quem trabalha com finanças, engenharia ou na área comercial, tem mais oportunidades de quem trabalha com marketing, por exemplo. “Mas isso tem mais a ver com mudanças mais profundas no modelo de negócio dessas áreas do que com o perfil profissional de cada um.” Confira o quadro abaixo:

Engenharia civil
É uma das áreas que valorizam profissional mais maduro. Isto porque as mudanças mais consistentes foram nos materiais empregados e menos nas técnicas

Setor comercial
Também é um bom empregador de gente com mais experiência. A senioridade no atendimento e o networking construído ao longo dos anos, contam muito a favor

Setor financeiro
É o campeão para quem tem mais de 50. Por ser área complexa que exige, além de conhecimento, muita experiência para lidar com o vaivém da economia